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The freewheeling

sexta-feira, 11 de março de 2016

Esterilizar a alma

  Ele está sentado em seu quarto já faz algum tempo. A velha poltrona verde já está desbotada pelo tempo e seu fundo está mole com a madeira velha, mesmo assim ele ainda acha que aquele é o lugar mais confortável do mundo. Em suas mãos e pernas pairam diversos objetos, além disso outros se apoiam na mesa com rodas que ele fez questão de posicionar a sua frente. 
  No chão há uma garrafa, vidro transparente, liquido amarronzado, cheiro forte. Em suas mãos um copo, seus lábios estão umedecidos e seus olhos arregalados, sinais que já está um pouco bêbado. No colo um caderno onde ele alterna as atividades, desenha e escreve freneticamente. Na mesa com rodas se encontra seu cachimbo cheio de fumo, um pouco queimado mas ainda dá para usar. Ao lado um isqueiro e alguns fósforos usados. 
  O quarto só se ilumina por uma luz bruxuleante que vem de uma lamparina no canto esquerdo do ambiente, Ele se inspira nisso, na solidão, no abandono e na podridão da existência. Essa é sua fonte, e dela ele bebe quase que literalmente, em grandes goles e tragadas ele recebe toda a realidade que precisa e cria. Não se sente especial por isso, apenas tenta suprir ânsias e necessidades pessoais, dar vazão a sentimentos e pensamentos que não param de atormentar sua mente, que por sua vez não é muito sadia. 
  Ele escreve e desenha com tanta fúria que as páginas do caderno são marcadas com a pressão da caneta no papel. Após um tempo produzindo ele toma mais um gole, recarrega o copo, acende o cachimbo, traga, joga a fumaça pro alto e volta a produzir. De fundo há uma música tocando, não é possível identificar de onde vem já que o espaço se encontra quase que inteiro envolto em penumbra. A música acaba e o radialista fala, ele nem presta atenção e outra canção é embalada.
   Ele entende que é dali que vem tudo, a cura para os problemas, ele crê que feridas do coração só são curadas com altas doses de álcool, ele quer ficar esterilizado para poder continuar a viver, ele quer purificar seu corpo e sua alma. 
  Depois de horas em sua tarefa árdua ele se cansa e joga tudo longe. Respira fundo, olha para o teto e nada vê, toma mais um gole, respira, mata o restante do copo, coloca ele de lado e se estica na poltrona, apesar de estar a menos de meio metro de sua cama prefere dormir ali, esticado, sem jeito com roupas velhas e bebida barata, porque ele sabe, sabe que é daquela fonte que ele bebe, sabe que aquela fonte é o que o nutre.  

domingo, 6 de março de 2016

Quando o dia começa a acabar

 Eu gosto quando o dia está acabando, o céu não é azul e o sol já não paira mais no céu. Eu gosto do vento desse horario, eu gosto de deitar no semi-escuro, nada ligado. Gosto de deitar sozinho e o silêncio desse momento consegue preencher diversas lacunas dentro de mim, consegue responder muitas coisas. Eu gosto do fim da tarde, gosto de ver as coisas perdendo suas cores até tudo ser escuridão. Gosto da calma que esse momento me passa, gosto da paz do fim da tarde. Imagino-me num loop eterno de fim de tarde, só eu e a luz que baixa de pouco em pouco....